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ENGENHARIA_CICLÍSTICA // WHITE_PAPER_TÉCNICO // FIT_ANALYSIS

Análise Cinemática de Arquivos FIT para Diagnóstico Mecânico da Interface Bicicleta-Ciclista

Marco Metodológico, Modelagem de Incerteza Instrumental e Validação mediante Simulação Monte Carlo com Limiares Dinâmicos por Configuração
White Paper v1.0 // Autor: Carlos Ravello // Março 2026 // BikeLab Studio — Divisão de Pesquisa Técnica
// Em resumo — antes das equações

A pergunta: seu Garmin grava milhares de dados em cada pedalada — dá para ler neles se sua bike está bem ajustada ou se sua pedalada falha?

A resposta curta: sim, mas não lendo os números crus. O arquivo .FIT vem cheio de ruído —erro de GPS, dropout de sensores, quantização de cadência— e lê-lo direto dá diagnósticos de aparência técnica mas frágeis. Este marco extrai quatro métricas confiáveis (variabilidade de cadência, relação velocidade/cadência, índice de estabilidade em subida e Variability Index), cada uma com sua faixa de incerteza, e ajusta os limiares à sua bike (disciplina, suspensão, transmissão, roda) em vez de usar valores universais. Tudo roda no seu navegador: o arquivo nunca sai do seu dispositivo.

O que vem a seguir, e por que acreditar: abaixo está o marco completo —cada métrica com sua justificativa física, seu modelo de ruído e sua validação Monte Carlo, mais as duas métricas que descartei por não serem confiáveis (porque dizer o que não serve também é rigor)—. Se você só quer analisar sua pedalada, use o FIT Analyzer ou o guia de leitura.

RESUMO

Objetivo: Desenvolver e validar um marco de análise para extrair métricas de comportamento mecânico do sistema bicicleta-ciclista a partir dos dados cinemáticos registrados em arquivos FIT gerados por dispositivos de ciclismo (ciclocomputadores, potenciômetros, sensores de cadência e frequência cardíaca).

Problema central: Os arquivos FIT contêm sinais com múltiplas fontes de ruído instrumental — erros de posicionamento GPS, dropout de sensores ANT+/BLE, quantização de cadência, deriva barométrica de altitude — que tornam inválida a leitura direta de métricas derivadas sem um tratamento estatístico explícito. Uma ferramenta que ignora essas fontes de incerteza produz diagnósticos de aparência técnica mas fundamento frágil.

Metodologia: Definem-se cinco métricas primárias, cada uma com sua justificativa física, modelo de incerteza por variável de entrada, critérios de validade contextual e pseudocódigo de simulação Monte Carlo. Os limiares de classificação não são constantes universais, e sim funções de quatro variáveis de configuração da bicicleta: disciplina, tipo de suspensão, transmissão e diâmetro de roda. O marco adota o princípio da honestidade estatística: cada resultado é reportado como distribuição de probabilidade sobre o espaço de classificação, não como valor único.

Resultados principais:

1. CONTEXTO E MOTIVAÇÃO

1.1 O formato FIT como fonte de dados mecânicos

O protocolo FIT (Flexible and Interoperable Data Transfer), desenvolvido e mantido pela Garmin Ltd., é o padrão de facto para o registro de atividades em dispositivos de ciclismo. Sua adoção é ampla: Garmin, Wahoo, Coros, Polar, Suunto, Bryton e outros fabricantes geram arquivos .fit compatíveis com a especificação pública do FIT SDK (Garmin, 2024).

A mensagem de registro (record message, tipo global 20) armazena séries temporais a 1 Hz das variáveis relevantes para esta análise: velocidade, cadência, altitude, distância, potência, frequência cardíaca e marcas de tempo. Este conjunto de dados, embora projetado para acompanhamento esportivo, contém informação cinemática suficiente para inferir características do comportamento mecânico do sistema bicicleta-ciclista sob certas condições de validade.

1.2 A lacuna entre dado registrado e diagnóstico válido

A literatura sobre análise de desempenho ciclístico (Faria et al., 2005; Abbiss & Laursen, 2008; Korff et al., 2007) se concentra predominantemente em métricas de desempenho fisiológico. O diagnóstico do comportamento mecânico da interface bicicleta-ciclista a partir de dados de campo permanece como território pouco explorado, em parte porque exige confrontar honestamente as limitações do sinal disponível.

Diferente de medições de laboratório com instrumentação controlada, os dados FIT de campo apresentam: dropout aleatório de sensores sem fio (5–15% de amostras conforme condições de RF), quantização de cadência por detecção magnética de ímã, ruído GPS de velocidade (±0.3 m/s típico a 1 Hz), deriva barométrica de altitude (±2 m), e gaps temporais de até 10 segundos que interrompem a continuidade local.

Ignorar essas fontes de incerteza equivale a apresentar rótulos de diagnóstico sem fundamento estatístico. O presente marco as trata explicitamente mediante simulação Monte Carlo.

2. FONTES DE RUÍDO E INCERTEZA INSTRUMENTAL

2.1 Cadência

A cadência se registra tipicamente mediante detecção magnética de ímã sobre o pedivela (sensor magnético) ou mediante acelerômetro interno (Garmin, Wahoo). As fontes de incerteza são:

2.2 Velocidade GPS

A velocidade é obtida do módulo GPS (diferencial de posição ou efeito Doppler conforme o dispositivo). A 1 Hz:

2.3 Altitude barométrica

A altitude se registra mediante sensor barométrico na maioria dos dispositivos modernos:

2.4 Potência

Quando está disponível, a potência provém de potenciômetro de pedalada (pedivela, pedal ou cubo):

3. CRITÉRIOS DE SEGMENTAÇÃO E VALIDADE CONTEXTUAL

Uma consequência direta do modelo de ruído é que nem todas as amostras de um arquivo FIT são igualmente válidas para o cálculo de métricas cinemáticas. O marco define dois níveis de filtragem:

3.1 Segmentação por continuidade temporal

Rompe-se a continuidade do segmento quando o gap temporal entre amostras consecutivas supera um limiar configurável (tipicamente 3–5 s para métricas de cadência e velocidade, 5 s para potência). Segmentos com menos de Nmin amostras válidas são descartados. Este critério previne que gaps de GPS, paradas em semáforos ou interrupções técnicas contaminem o cálculo de variância local.

3.2 Exclusão por regime não quase-estacionário

As métricas de variância local (cadência, relação velocidade/cadência, índice de estabilidade em subida) são fisicamente interpretáveis apenas em regime quase-estacionário. Excluem-se janelas que contêm:

Esta exclusão é conservadora mas necessária: incluir transitórios no cálculo de variância local produz diagnósticos falsos positivos de instabilidade que na realidade são fisiológicos ou táticos, não mecânicos.

4. MÉTRICAS PRIMÁRIAS: JUSTIFICATIVA FÍSICA E OBSERVABILIDADE

Aqui está o núcleo: os quatro sinais que de fato dizem algo sobre sua bike e sua pedalada, e por que cada um é fisicamente observável. Cada métrica vem com o que mede, quando é válida e —algo que quase nenhum software admite— quando não se deve confiar nela.

Nota sobre transparência metodológica: As fórmulas exatas implementadas no motor de cálculo, os parâmetros específicos de segmentação e os coeficientes do modelo de incerteza são proprietários da BikeLab Studio. Este documento descreve a justificativa física, o princípio de cálculo e as premissas de cada métrica com rigor suficiente para avaliação científica independente, sem constituir uma especificação de implementação completa.

Métrica 1: Variância Local de Cadência

MECÂNICA

Justificativa física: Em regime quase-estacionário (velocidade e carga relativamente constantes), um ciclista treinado mantém uma cadência com variação relativa baixa. Oscilações persistentes de cadência dentro de um mesmo regime refletem perturbações na continuidade do torque útil — seja por irregularidades do terreno que o sistema de suspensão não absorve completamente, por perdas de tração, por instabilidade na posição sobre o selim, ou por mudanças de marcha frequentes. Faria et al. (2005) e Hansen et al. (2007) documentam que a cadência ótima para minimizar o custo metabólico se situa na faixa 80–100 rpm para ciclismo de estrada, com maior dispersão tolerável no MTB pela variabilidade do terreno.

Princípio de cálculo: O coeficiente de variação (CV) da cadência sobre janelas quase-estacionárias. Complementa-se com o desvio absoluto mediano (MAD) escalado para robustez frente a outliers produzidos por dropout ou interpolação defeituosa. O CV é calculado sobre amostras válidas de cadência ativa (pedalada efetiva detectada), excluindo transições para zero.

■ FÓRMULA PROPRIETÁRIA — PRINCÍPIO PUBLICADO, IMPLEMENTAÇÃO RESERVADA CVc,k = f(cadência_válidak) sobre janela Wk
MADc,k = função de robustez escalada sobre Wk
Métrica reportada: mediana(CVc,k) sobre todas as janelas válidas

Em palavras: se você pedala em ritmo constante no plano e mesmo assim sua cadência sobe e desce sozinha, algo está perturbando a entrega de força —terreno que a suspensão não absorve, perda de tração, postura instável ou mudanças de marcha demais—. Esta métrica mede esse "tremor" da cadência: quanto mais baixo, mais limpa e eficiente é sua pedalada.

Condições de validade: Regime quase-estacionário, cadência ∈ [30, 160] rpm, velocidade > 1 m/s, gap entre amostras ≤ 3 s. Não aplicável em acelerações, curvas abertas, mudanças de marcha evidentes nem cruzamentos de semáforo.

Classificação: Estável / Atenção / Crítico. Os limiares numéricos dependem da configuração da bicicleta (ver Seção 5).

Métrica 2: Relação Velocidade/Cadência como Proxy de Desenvolvimento Efetivo

MECÂNICA

Justificativa física: A relação entre velocidade linear da bicicleta e cadência de pedalada é uma função direta do desenvolvimento efetivo total (relação de transmissão × circunferência da roda). Em regime estável com marcha fixa, esta relação deveria ser aproximadamente constante. Seu coeficiente de variação captura a dispersão produzida por mudanças de marcha frequentes, instabilidade de velocidade sobre terreno variável, ou ruído GPS elevado. Seu valor absoluto, normalizado pela circunferência da roda se esta for conhecida, aproxima a relação de transmissão efetiva utilizada.

Princípio de cálculo: Ri = 60 · vi / ci, expresso em metros avançados por revolução de pedivela. O CV de R sobre segmentos quase-estacionários sem mudanças de marcha detectadas é a métrica primária. A mediana de R permite inferir o desenvolvimento médio utilizado.

■ FÓRMULA PROPRIETÁRIA — PRINCÍPIO PUBLICADO, IMPLEMENTAÇÃO RESERVADA Ri = 60 · vi [m/s] / ci [rpm] → [m/rev]
CVR,k = σ(Rk) / μ(Rk) sobre segmento quase-estacionário k
Métrica reportada: mediana(CVR,k) · Classificação por limiares dinâmicos

Condições de validade: Velocidade ≥ 2.5 m/s (limiar de confiabilidade GPS), cadência ≥ 30 rpm, sem mudanças de marcha dentro da janela, regime quase-estacionário. A velocidades baixas, o erro relativo do GPS sobre R se torna dominante e a métrica é não confiável.

Limitação declarada: Esta métrica não distingue entre instabilidade mecânica real e comportamento tático legítimo (mudanças de marcha frequentes por terreno variável). A segmentação prévia reduz mas não elimina esta ambiguidade.

Métrica 3: Índice de Estabilidade em Subida (IES)

MECÂNICA

Justificativa física: A subida é o regime de maior demanda mecânica sobre o sistema bicicleta-ciclista. Em inclinação sustentada, a velocidade e a cadência tendem a se estabilizar quando o sistema opera em equilíbrio entre potência disponível e resistência gravitacional. A dispersão simultânea de ambas as variáveis reflete perturbações do sistema: perdas de tração sobre terreno irregular, instabilidade da posição do ciclista por mau ajuste de geometria ou selim, resposta inadequada da suspensão à demanda de tração, ou padrões de pedalada que fragmentam o torque útil.

Princípio de cálculo: O IES combina o coeficiente de variação de velocidade e o coeficiente de variação de cadência sobre segmentos de subida identificados, com ponderação igualitária (0.5 + 0.5). A inclinação é calculada sobre uma janela espacial suficientemente ampla para superar o ruído barométrico. A altitude é suavizada antes do cálculo da inclinação.

■ FÓRMULA PROPRIETÁRIA — PRINCÍPIO PUBLICADO, IMPLEMENTAÇÃO RESERVADA IESk = 0.5 · CV(vk) + 0.5 · CV(ck) sobre segmento de subida Uk
Inclinação: gi = Δh / Δx (janela espacial proprietária, altitude pré-suavizada)
Limiar mínimo de subida: g ≥ 3% com duração mínima proprietária

Condições de validade: Inclinação suavizada ≥ 3%, comprimento de segmento mínimo, velocidade média ≥ limiar de confiabilidade GPS, altímetro barométrico disponível. Se não se detectam subidas sustentadas, a métrica é reportada como não aplicável com nota explicativa.

Métrica 4: Variability Index (VI = NP/AP)

REQUER POTENCIÔMETRO

Justificativa física: O Variability Index, definido como o quociente entre a Potência Normalizada (NP) e a Potência Média (AP), quantifica a irregularidade do esforço de pedalada. A NP é calculada mediante média móvel de 30 segundos elevada à quarta potência, o que penaliza desproporcionalmente os picos de potência em relação à média aritmética. Um VI alto indica esforço errático: seja por terreno muito variável, por padrão de pedalada ineficiente no contexto do percurso, ou por mudanças táticas frequentes. Abbiss & Laursen (2008) documentam a relação entre VI e custo metabólico em ciclismo de competição.

Vantagem frente ao ruído: Esta é a métrica mais robusta do conjunto. O quociente NP/AP é pouco sensível ao ruído aleatório pequeno do potenciômetro porque a média móvel de 30 s filtra parte da variabilidade instrumental. O erro relativo do potenciômetro (1–3%) se propaga de forma multiplicativa e aproximadamente constante no numerador e no denominador, resultando em cancelamento parcial.

■ FÓRMULA PROPRIETÁRIA — PRINCÍPIO PUBLICADO, IMPLEMENTAÇÃO RESERVADA AP = μ(Pi) sobre segmento contínuo
i = média móvel de 30 s de Pi (parâmetros de janela proprietários)
NP = [μ(P̃i4)]0.25
VI = NP / AP · Limiares de 4 faixas dinâmicas

Classificação: Quatro faixas: Muito estável / Estável / Variável / Crítico. Os limiares absolutos se ajustam por disciplina e suspensão (ver Seção 5). A dependência com o diâmetro de roda é desprezível para esta métrica.

Métrica 5: Decoupling Cardíaco Pw:HR

FISIOLÓGICA — AVISO

Justificativa física: A relação potência/frequência cardíaca (EF, Efficiency Factor) tende a diminuir ao longo de um esforço prolongado a carga constante devido à deriva cardiovascular (aumento de FC sem incremento de potência). A porcentagem de mudança de EF entre a primeira e a segunda metade do segmento (decoupling) é um indicador de fadiga cardiovascular e da capacidade do sistema cardiovascular para sustentar o esforço. Barsumyan et al. (2025) documentam o uso de métricas Pw:HR em análise de desempenho com modelos de IA.

Aviso metodológico declarado: Esta métrica é dominada pela fisiologia, não pela mecânica. Temperatura, hidratação, fadiga acumulada, estado autonômico e tipo de sensor de frequência cardíaca (cinta torácica vs. sensor óptico) influenciam de forma determinante. Não deve ser interpretada como indicador de eficiência mecânica da transmissão nem da interface corpo-bicicleta. Inclui-se porque é matematicamente calculável e tem utilidade para o ciclista como indicador de estado fisiológico no contexto da atividade analisada.

■ FÓRMULA PROPRIETÁRIA — PRINCÍPIO PUBLICADO, IMPLEMENTAÇÃO RESERVADA1 = μ(Pi/HRi) sobre a primeira metade do segmento
2 = μ(Pi/HRi) sobre a segunda metade do segmento
DPw:HR = (R̄1 - R̄2) / R̄1 × 100 [pp]

4.1 MÉTRICAS AVALIADAS E DESCARTADAS

Histerese velocidade/inclinação

Conceito: A diferença na relação velocidade-inclinação entre os ramos ascendente e descendente de um gradiente idêntico capturaria perdas mecânicas da transmissão ou resposta ineficiente da suspensão.

Razão de descarte: Com ruído de velocidade GPS de ±0.3 m/s e ruído de altitude de ±2 m, as diferenças pequenas entre ramos não são distinguíveis com confiança do erro combinado de medição e segmentação. Apenas discrepâncias normalizadas superiores a 10% emergem sobre o ruído. Exige ainda condições muito específicas (percurso bidirecional, ausência de microondulações) que não estão garantidas em uso geral. Veredito: modelável com confiança média-baixa. Descartada como métrica primária.

Aceleração longitudinal derivada

Conceito: A aceleração longitudinal captura a resposta dinâmica do sistema frente a perturbações do terreno.

Razão de descarte: A derivada numérica de velocidade GPS a 1 Hz amplifica fortemente o ruído. A propagação analítica de incerteza para diferença para frente com εv ~ Uniform(−0.3, 0.3) m/s produz σa ≈ 0.245 m/s² de ruído puro por medição, independente de qualquer aceleração real. A este nível de ruído, a maioria das acelerações reais de interesse mecânico fica submersa. Exigiria suavização forte prévia que destrói o sinal que se pretende medir. Veredito: não modelável com confiança suficiente como métrica de interação mecânica sob GPS a 1 Hz.

5. SISTEMA DE LIMIARES DINÂMICOS POR CONFIGURAÇÃO

Um erro frequente em ferramentas de análise de atividade esportiva é aplicar limiares universais a métricas cujo valor esperado em condições normais varia significativamente com a configuração do sistema. Um ciclista de MTB com dupla suspensão em terreno técnico exibirá necessariamente maior variância de cadência que um ciclista de estrada no plano, não porque o sistema falhe, mas porque a excitação mecânica externa é distinta.

O presente marco adota o princípio de correção aditiva linear sobre limiares base:

Tfinal = Tbase + Δdisciplina + Δsuspensão + Δtransmissão + Δroda

onde cada Δj existe somente quando há uma razão física clara para modificar o limiar da métrica m. A regra explícita é: as variáveis que não produzem uma correção fisicamente defensável para uma métrica dada recebem Δ = 0 para essa métrica. Isso mantém o sistema finito e os ajustes auditáveis.

5.1 Variáveis de correção e sua justificativa

Disciplina (estrada / gravel / MTB)

O ambiente de excitação externa difere fundamentalmente entre disciplinas. MTB sobre terreno técnico introduz perturbações de cadência e velocidade que são respostas normais do sistema, não indicadores de falha mecânica. Gravel representa um caso intermediário. Esta variável produz as correções mais consistentes através de todas as métricas cinemáticas.

Tipo de suspensão (rígida / hardtail / dupla)

A suspensão desacopla parte da excitação vertical do terreno do movimento do quadro e do ciclista, mas também introduz perdas dinâmicas e pequenas mudanças na continuidade efetiva da pedalada. Uma maior dispersão de cadência em um sistema de dupla suspensão sobre terreno quebrado não implica automaticamente má interação corpo-máquina. O ajuste é mais relevante para as métricas de subida (IES) do que para a relação V/C.

Transmissão (1x / 2x)

Os sistemas 1x (monoplato) apresentam saltos relativos maiores entre relações disponíveis que os sistemas 2x (duplo plato). Isso produz maior dispersão esperada da relação V/C em terreno variável, não porque o sistema seja instável, mas porque o espaço de relações disponíveis é mais disperso. O efeito sobre a variância de cadência é menor. Esta variável não afeta de forma defensável o VI nem o decoupling Pw:HR.

Diâmetro de roda (26" / 27.5" / 29" e 700c)

Rodas de menor diâmetro atravessam pior irregularidades equivalentes (maior ângulo de impacto para obstáculo de altura fixa), induzindo mais perturbação em velocidade e cadência. O efeito é principalmente relevante para métricas cinemáticas (cadência, V/C, IES) e desprezível para VI e decoupling.

5.2 Variáveis que não modificam limiares

Várias variáveis que poderiam parecer relevantes não se incluem como correções de limiar, e sim como flags de invalidez contextual: terreno muito técnico com paradas frequentes, percursos com drafting intenso, condições de barro extremo, sinal GPS degradado (HDOP > 5), atividades com múltiplos gaps > 10 s.

A razão é importante: essas variáveis não devem relaxar o limiar, e sim diretamente anular a interpretabilidade da métrica. Um limiar corrigido para "terreno muito técnico com barro" seria arbitrário; a decisão correta é marcar a métrica como não estimável nessas condições.

Variáveis adicionais que não se incluem por risco de sobreajuste: largura do pneu, pressão de enchimento, comprimento do pedivela, peso do ciclista, avanço do garfo, sag da suspensão. A robustez do sistema requer limitar as correções a variáveis com efeito físico documentável e não redundante.

6. MODELAGEM DE INCERTEZA: SIMULAÇÃO MONTE CARLO

6.1 Princípio e motivação

A análise de propagação de incerteza analítica é impraticável para métricas não lineares como o CV de cadência ou o IES, porque envolvem operações sobre distribuições de sinais com dropout aleatório, interpolação condicional e segmentação dependente de dados. A simulação Monte Carlo permite quantificar a distribuição do resultado sob o modelo de ruído instrumental sem exigir aproximações analíticas.

A pergunta que o MC responde não é "qual é o valor da métrica?", e sim "dado o modelo de ruído plausível para este tipo de sinal FIT, com que probabilidade este resultado teria sido classificado como estável, em atenção ou crítico?"

6.2 Estrutura da simulação

Modelo de ruído por variável:

Versão implementada: Versão mínima robusta — configuração de bicicleta fixa (limiares dinâmicos constantes dentro do run). O MC propaga apenas incerteza instrumental. N = 500 iterações (equilíbrio entre confiança estatística e performance no navegador).

Saída por métrica:

6.3 Interpretação da saída MC

Um resultado de P(crítico) = 0.73 não significa que o sistema "falhe" com probabilidade 73%. Significa que sob o modelo de ruído instrumental assumido, 73% das realizações plausíveis do sinal observado teriam sido classificadas como críticas. É uma medida de robustez da classificação, não de probabilidade de falha mecânica real.

A distinção é importante: uma classificação de "crítico" com P(crítico) = 0.95 é muito robusta ao ruído. Uma classificação de "crítico" com P(crítico) = 0.52 é marginal e deve ser interpretada com cautela. A ferramenta apresenta essa informação explicitamente para evitar falsos positivos de diagnóstico.

7. ARQUITETURA DE IMPLEMENTAÇÃO

7.1 Especificação técnica

7.2 Reprodutibilidade e proteção

Os parâmetros específicos de segmentação, os limiares dinâmicos exatos por combinação de configuração, os coeficientes do modelo de ruído e o algoritmo de imputação de dropout são proprietários da BikeLab Studio. O código de produção está ofuscado e protegido mediante técnicas de domain trap que produzem resultados silenciosamente envenenados em implementações não autorizadas fora do domínio oficial.

As fórmulas descritas neste documento correspondem aos princípios de cálculo implementados. Os parâmetros numéricos exatos e as correções pós-cálculo não estão incluídos nesta descrição pública.

8. LIMITAÇÕES DECLARADAS DO MARCO

9. DADOS TÉCNICOS DE SIMULAÇÃO

9.1 Especificação da simulação MC

9.2 Framework metodológico — Modelo de Coerência Dinâmica

As decisões de arquitetura do presente marco — em particular a escolha de reportar distribuições de probabilidade sobre o espaço de classificação em vez de valores únicos, a documentação explícita de métricas descartadas e suas razões, e o princípio de que uma variável que não produz correção fisicamente defensável recebe Δ = 0 — são consequências diretas de aplicar os princípios operativos do Modelo de Coerência Dinâmica (MCD), framework proprietário desenvolvido por Carlos Ravello (2025).

O MCD postula que um sistema técnico atinge coerência funcional ótima não eliminando sua incerteza, mas integrando-a como variável explícita do processo. No presente contexto: a faixa de confiança Monte Carlo, a documentação de limitações e a arquitetura de limiares dinâmicos finitos são expressões diretas do princípio Ω de coerência dinâmica aplicado ao domínio da análise cinemática de ciclismo.

O framework MCD não está publicado em sua forma completa. — Ravello, C. (2025). Modelo de Coerência Dinâmica. Documento interno não publicado. BikeLab Studio.

10. CONCLUSÕES

A análise de arquivos FIT para diagnóstico mecânico da interface bicicleta-ciclista é tecnicamente viável sob condições de validade explícitas e com um tratamento estatístico honesto das fontes de ruído instrumental. As métricas de variância de cadência, relação velocidade/cadência, índice de estabilidade em subida e Variability Index (com potenciômetro) constituem um conjunto coerente e complementar de indicadores do comportamento cinemático do sistema.

A contribuição central deste marco é dupla: por um lado, a documentação explícita das condições sob as quais cada métrica é válida (e daquelas sob as quais não é); por outro, o sistema de limiares dinâmicos que reconhece que o "valor esperado normal" dessas métricas não é universal, e sim função da configuração do sistema bicicleta.

A simulação Monte Carlo não melhora a precisão do cálculo; proporciona honestidade estatística sobre sua robustez. Um resultado classificado como "crítico" com P(crítico) = 0.90 sob o modelo de ruído instrumental é uma conclusão sólida. Um resultado marginal com P(crítico) = 0.55 deve ser apresentado como tal, não como diagnóstico definitivo.

As métricas descartadas — histerese velocidade/inclinação e aceleração longitudinal derivada — são exemplos de indicadores conceitualmente interessantes mas instrumentalmente não viáveis com a qualidade de sinal disponível em dados FIT de campo a 1 Hz. Documentar o descarte é parte do rigor metodológico.

11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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  8. Ravello, C. (2025). Modelo de Coherencia Dinámica — Principios operativos para sistemas de decisión bajo incertidumbre. Documento interno no publicado. BikeLab Studio, Trujillo, Perú.
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